Na região dos Praiados, em Maricá, o cenário é de preservação da mata (Foto: Aluizio Freire)
Na região do Espraiado, em Maricá, o cenário é de preservação da mata (Foto: Aluizio Freire/G1)

Eles estão distantes da polêmica que envolve as propostas do Código Florestal. Mas, na prática, são capazes de dar aulas e exemplos de equilíbrio da produção com a preservação. Esses “professores” de respeito ao meio ambiente fazem parte de uma pequena comunidade rural em Espraiado, distrito de Maricá, na Região Metropolitana, a cerca de 80 quilômetros do Rio.
Conter o desmatamento
Ali, pequenos produtores, que utilizam suas propriedades para plantar aipim, banana, limão, milho e algumas hortaliças, reconhecem que a preservação da floresta é fundamental para garantir o sustento de suas famílias com o cultivo de produtos de qualidade para comercialização no mercado local.
Pequeno produtor em Maricá, José Milton reclama a falta de incentivo (Foto: Aluizio Freire)
Pequeno produtor em Maricá, José Milton reclama
da falta de incentivo (Foto: Aluizio Freire/G1)
A partir da origem do nome da serra os moradores dessa comunidade confirmam suas convicções de respeito às reservas naturais da região. Espraiado surgiu na época das cheias que alagavam a área, espraiando as águas dos riachos que formam o Rio Caranguejo.
“A gente aqui não deixa ninguém desmatar. Somos fiscais voluntários desse espaço. Todos são pequenos produtores que usam a terra, criaram suas famílias aqui, cresceram em contato com essa mata. Quando a gente não respeita, ela traz uma tragédia como alerta”, afirma José Milton dos Santos, 36 anos, um dos produtores ativos da região.
Alternativa para produzir
José lamenta, no entanto, a falta de apoio e incentivo à produção. “Estamos desanimados. O custo para plantar é muito alto, tem o transporte das mercadorias, e na hora de vender não querem pagar um preço justo”, reclama.
Estrada que leva aos sítios de produtores rurais em Espraiados, Maricá (Foto: Aluizio Freire)
Estrada que leva aos sítios de produtores rurais
em Espraiado, Maricá (Foto: Aluizio Freire/G1)
Ele dá como exemplo os preços oferecidos pela banana e aipim. “Já cheguei a produzir 100 caixas de aipim aqui, mas eles só pagam R$ 10 pela caixa de 20 quilos. Na banana, oferecem R$ 0,30 o quilo. Não estava compensando”, acrescenta.
Diante dessa realidade, a presidente da Associação de Amigos de Espraiados (Ame), Valdinéia Montenegro Conceição, 45, que também possui uma área de produção, faz parte de um grupo que saiu em busca de uma saída alternativa de geração de renda.
Eles passaram a promover um evento mensal – sempre no primeiro domingo do mês –, que se chama “Espraiado de portas abertas”, para receber visitantes da cidade. Nos sítios, oferecem café da manhã, com bolos de aipim e sucos diversos, almoços, além da venda de produtos feitos pelos artesãos nativos.
Néia, presidente da Associação de Praiados, é uma das criadoras de evento em Maricá (Foto: Aluizio Freire)
Valdinéia, da associação, ajuda a promover evento
rural em Maricá (Foto: Aluizio Freire/g1)
“A agricultura de Maricá foi negligenciada durante muito tempo pela falta de apoio das autoridades, inclusive dos municípios. Essa categoria foi quase dizimada. Eles fazem parte de um grupo de resistência que hoje consegue desenvolver essa produção consorciada se beneficiando da preservação da natureza. E tem o nosso apoio”, afirma o secretário de Agricultura e Pesca de Maricá, Cláudio Jorge Soares.
Para o ambientalista Vilmar Berna, que atua na comunidade de Jurujuba, em Niterói, Região Metropolitana do Rio, iniciativas de apoio aos pequenos produtores devem ser estimuladas.
Código de Biodiversidade
“A produção que gera trabalho e renda deve ser prioridade e não aquela para equilibrar a balança comercial. Quem planta para produzir etanol, planta soja e milho para alimentar animal no exterior, tem tudo mecanizado. É essa gente que desmata desordenadamente, sem respeito ao meio ambiente, porque só visa lucros crescentes”, analisa.
Moradores de Espraiados resistem às dificuldades e se dedicam à agricultura (Foto: Aluizio Freire)
Moradores de Espraiado resistem às dificuldades
e se dedicam a agricultura (Foto: Aluizio Freire/G1)
Atento às articulações sobre o Código Florestal, apesar da aprovação na Câmara do projeto do relator Aldo Rebelo, Vilmar acredita que ainda haverá alguns desdobramentos até a proposta chegar ao Senado e à mesa da presidente Dilma Rousseff para definir a reforma.
“É óbvio que o Código é inadequado. Mas é preciso procurar um consenso. Infelizmente, os políticos estão falhando na capacidade de intermediar os conflitos”, critica.
O técnico agrícola Maurício Ruiz, secretário executivo do Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA-RJ), uma das organizações da Coordenação Nacional da Rede Mata Atlântica, defende uma discussão que garanta um Código de Biodiversidade para o Brasil.
“O nosso país possui a maior biodiversidade do planeta. O código deve servir para garantir a vida das pessoas, a fertilidade do solo e a qualidade da água. É algo que tem um grande apelo social. Não podemos ficar reféns de um documento”, conclui.

Deixe uma resposta

Escreva seu comentário!
Digite seu nome